Sinopse
Kennedy Waters sempre achou que espíritos vingativos fossem coisa de cinema, até a morte de sua mãe. É quando os gêmeos Lockhart invadem sua casa para lhe livrar de um destino igual que descobre que o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos é frágil. Ele deve ser protegido pelos caçadores de fantasmas da Legião da Pomba Negra, que atualmente só tem uma geração de jovens para lidar com seus inimigos, e da qual a mãe de Kennedy outrora fez parte. E agora os gêmeos devem convencê-la de que herdou o seu poder...
Capítulo 1 - Sonâmbula
Ao afundar os pés descalços na terra úmida, tentei não pensar nos cadáveres enterrados sob mim. Já tinha passado várias vezes por aquele pequeno cemitério, mas nunca à noite e sempre do lado de fora dos portões de ferro descascados. Eu teria dado qualquer coisa para estar do outro lado naquele momento. Sob o luar, as fileiras de lápides gastas revelavam a verdadeira natureza daquele terreno bem-cuidado: a tampa gramada de um enorme caixão. Um galho estalou, e me virei.
— Elvis? — Procurei um indício do rabo anelado cinza e branco de meu gato. Elvis jamais fugia, em geral se contentava em rodear meus calcanhares sempre que eu abria a porta... até aquela noite. Ele havia corrido tão rápido que não tive nem tempo de pegar os sapatos, e o persegui por oito quarteirões até acabar ali. Vozes abafadas flutuaram através das árvores, e eu congelei. Do outro lado dos portões, uma garota de moletom azul e cinza da universidade de Georgetown passou sob a claridade fraca do poste de iluminação. As amigas a alcançaram, rindo e tropeçando pela calçada. Elas chegaram a um dos prédios acadêmicos e desapareceram lá dentro. Era fácil esquecer que o cemitério ficava no meio de um campus universitário. Quando me embrenhei mais profundamente entre as fileiras irregulares, os postes de iluminação desapareceram atrás das árvores, e, de vez em quando, as nuvens
mergulhavam o cemitério em sombras. Ignorei os sussurros no fundo de minha mente incitando-me a ir para casa. Algo se moveu em minha visão periférica: um relance de
branco. Examinei as lápides, completamente banhadas de preto. Qual é, Elvis. Onde você está? Nada me assustava mais que o escuro. Eu gostava de ver o que vinha pela frente, e as coisas podiam se esconder na escuridão. Pense em outra coisa. A lembrança irrompeu antes que eu conseguisse impedir... O rosto de minha mãe pairando sobre o meu enquanto eu piscava para acordar. O pânico em seus olhos quando pressionou um dos dedos sobre os lábios, mandando-me ficar quieta. O chão frio sob meus pés ao andarmos até o armário, onde ela empurrou os vestidos para o lado.
— Tem alguém na casa — sussurrou ela, tirando uma tábua da parede e revelando uma pequena abertura. — Fique aqui até eu voltar. Não dê um pio.
Enfiei-me ali dentro enquanto ela recolocava a tábua no lugar. Jamais tinha ficado na escuridão completa. Fixei os olhos em um ponto a centímetros de distância de mim, onde a palma de minha mão apoiava-se na tábua. Mas não conseguia vê-la. Fechei os olhos para me proteger do breu. Havia sons de escada rangendo, móveis raspando contra o chão, vozes abafadas, e um pensamento não me saía da cabeça. E se ela não voltasse? Apavorada demais para ver se eu conseguiria sair sozinha, fiquei com a mão na madeira. Escutava minha respiração entrecortada, convencida de que quem quer que estivesse na casa também podia ouvi-la. Finalmente, a tábua cedeu sob a palma de minha mão, e uma torrente de luz inundou o espaço. Minha mãe estendeu os braços para mim, jurando que os invasores tinham fugido. Enquanto ela me carregava para fora do armário, eu não conseguia ouvir nada além das batidas de meu coração e não conseguia pensar em nada além do esmagador peso da escuridão. Só tinha 5 anos na época, mas ainda me lembrava de cada minuto que passara dentro do espaço estreito. A memória fazia o ar em volta parecer sufocante. Parte de mim queria ir para casa, com ou sem meu gato.
— Elvis, venha aqui!
Algo se deslocou entre as lápides lascadas diante de mim.
— Elvis?
Um vulto emergiu de trás de uma cruz de pedra. Eu me sobressaltei, deixando escapar um minúsculo suspiro por entre os lábios.
— Desculpe. — Minha voz vacilou. — Estou procurando meu gato.
O desconhecido não disse uma palavra.
Os sons se intensificaram de modo vertiginoso: galhos se quebrando, folhas farfalhando, meu coração pulsando. Pensei nas centenas de programas de crimes sem solução a que tinha assistido com minha mãe e que começavam exatamente assim: uma garota sozinha em algum lugar onde não deveria estar, olhando para o homem que estava prestes a atacá-la. Dei um passo para trás, e a lama grossa envolveu meus calcanhares como uma mão me prendendo no lugar. Por favor, não me machuque. O vento varreu o cemitério, levantando longas mechas emaranhadas dos ombros do desconhecido e o fino tecido de um vestido branco de suas pernas. Um vestido. Senti uma onda de alívio.
— Você viu um siamês branco e cinza? Vou matá-lo quando o encontrar.
Silêncio. O vestido foi iluminado pelo luar, e percebi que não era um vestido. Ela usava uma camisola. Quem perambularia por um cemitério de camisola? Alguma louca. Ou uma sonâmbula. Não se deve acordar um sonâmbulo, mas também não podia deixá-la ali sozinha à noite.
— Oi? Está me ouvindo?
A garota não se moveu, encarando-me como se conseguisse ver meus traços no escuro. Senti um aperto na boca do estômago. Queria desviar minha atenção para outra coisa, qualquer coisa que não fosse aquele olhar fixo e perturbador. Desviei os olhos para a base da cruz. Os pés da garota estavam tão descalços quanto os meus e não pareciam tocar o chão. Pisquei várias vezes, sem querer considerar a outra possibilidade. Só podia ser um efeito do luar e das sombras. Olhei para meus próprios pés, cobertos de lama, e depois olhei outra vez para os dela. Eram pálidos e estavam limpos. Um lampejo de pelo branco passou como um raio diante dela e correu em minha direção. Elvis.Eu o agarrei antes que conseguisse fugir. Ele bufou para mim, arranhando e se contorcendo violentamente até que o
larguei. Meu coração batia com força enquanto o gato corria pela grama e se espremia por baixo do portão. Olhei outra vez para a cruz de pedra. A garota tinha sumido. O chão não passava de uma camada lisa e intocada de lama. O sangue dos arranhões escorria por meu braço enquanto eu atravessava o cemitério, tentando descartar a garota de camisola branca de forma racional. Silenciosamente, relembrava a mim mesma de que não acreditava em fantasmas.
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